É descendente de familia de
samurais. Em sua infancia foi frágil, introvertido e baixinho; hoje
continua sendo pequeno de altura. Começou sua prática a idade de 10
anos, em Judo, enquanto estava no colégio. No Karaté começa em 1939, a
idade de 13 anos, tutelado por Sensei Masusa, com a ideia de vingar-se dos
garotos que frequentemente se metiam com ele, debochavam dele, por ser
mais pequeno que os da sua mesma idade; hoje ele é uma das pessoas mais
humildes e honestas que tive o privilégio de conhecer.
Seu segundo mestre foi Koho Kuba
(1864-1944) na cidade de Kawasaki, Okinawa. Todas as tardes andava 50
minutos de Agena a Kawasaki, para aprender com o Sensei Kuba, até 1944,
em que este falece.
Em 1941 começa o trabalho com pesos
a idade de 15 anos, que nao interrompe até fazer 40Estuda o Liceu em
Tengan (Okinawa). Durante a Segunda Guerra Mundial ainda cursava os últimos
anos do ensino secundário.
Em 1947, com 21 anos de idade, começa
a ensinar Karaté. Em 1949, com 23, começa seus estudos d~e Kobudo com
Shinpo Matayoshi (1923),'çm Isikawa, percurso que fazia a pé desde Agena.
Na actualidade Matayoshi vive e
ensina em Naha. Os vizinhos de Odo já viam como coisa natural que ele
treinasse Kobudo no telhado da sua casa.
Um pouco mais tarde começa seu
treinamento com Toma Seiki (1920) em Coza, actualmente conhecida como a
cidade de Okinawa. Seu mestre em Toma Seiki foi Senryo Shimabuku, que por
sua vez foi aluno de Chotoku Kia ([870-1945). Sensei Toma vive na
actualidade em Awase.
Em 1951, começa o aprendizado com
Shigeru Nakamura, na cidade de Nago. Estudos que continuou até a morte
deste, tendo estudado com trés mestres ao mesmo tempo, Nakamura,
Matayoshi e Toma.
Sensei Odo trabalhava na base
norteamericana (Marine Base), aposentou-se em 1987 e na actualidade sua
vida está dedicada as Artes Marciais.
Em 1970 foi vicepresidente da Zen
Okinawa Kobudo Renmei, um dos sistemas de Kobudo mais respeitados de
Okinawa, que é encabeçado por Chinpo Matayoshi.
Ao falecimento de Nakamura Sensei,
Odo passa a ser o presidente da Okinawa Kempo Karaté, até que pega nas rédeas
do sistema o filho de Nakamura, de nome Toketo Nakamura. Naqueles anos,
Sensei Odo é 9°Dan do sistema. Na actualidade é o grau mais alto da
Okinawa Kempo Karaté.
Conheci Sensei Odo em 1987, através
de Mico, a mulher de Bob Teller ex-soldado americano que esteve na ilha de
Okinawa durante 15 anos-, nativa de Okinawa, sendo sua família vizinha de
Sensei Odo.
Graças a gentileza de Bob, Sensei
Odo recebeu-nos com muita amabilidade e gentileza, tendo conversado
durante um longo espaço de tempo e a partir dai, comecei a treinar com
ele. Nessa época, seu ajudante era Dean M. Stephen, com quem eu acelerava
meu processo de aprendizado do programa.Nesse ano de 1987, Sensei Odo
passou por uma operaçao de coraçao.
Mesmo assim, muitos dias treinava
connosco em seu dojo de Agena e na Base, chegando muitas vezes a zangar-se
comigo, quando eu Ihe dizia para nao se cansar, respondendo-me: "Se
queres aprender vai ter com fulano... OU com outro qualquer, mas nao me
aborreças". Realmente, eu nao fazia nada que pudesse incomodá-lo.
Em um dos descansos disse-lhe: Sensei, eu tenho 38 anos e já estou mal,
quando tiver a sua idade quem me diz a mim que nao estarei pior? Eu quero
aprender e para isso é preciso que O'Sensei nao faça isto.
Dois anos mais tarde tornei a
encontrar Sensei Odo e estive trabalhando com ele durante toda a minha
estadia em Okinawa. Desta vez sua saúde era ótima e estava recuperado,
fazendo de seus treinamentos os mais duros e completos.
Apesar de tudo, neste segundo
encontro ainda nao consegui ganhar a amisade do mestre Odo. Quando digo
amisade refiro-me a que apesar de me ter ensinado, nao notei que o fizesse
com muito agrado, se bem o mestre Odo forma parte da geraçao dos 60-70
anos para cima. Com o tempo, o Mestre deu-me atençao e honrou-me com seu
carinho.
O Okinawa Kempo Karaté tem alunos
distribuidos por todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos, onde
Seikichi Odo é uma lenda, viaja até lá umas duas ou trés vezes por
ano.
ENTREVISTA 1999
C.N.: Como começou seu treinamento
e por que?
Seikichi Odo: Comecei com 13 anos
por que naquele tempo Okinawa era o centro do Karaté no mundo e eu tinha
que ser parte daquilo.
C.N.: Quem foi o seu primeiro
Professor?
S.O.: Matsuda Sensei, _ foi um dos
primeiros, ensinou-me um pouco de Karaté mas nao Kobudo. Kokuba Sensei
também me ensinou, mas ele e sua familia foram para o a Brasil quando ele
já
tinha 80 anos! Nao sei se _ ainda é
vivo (ri), a partir dai foi Matayoshi Sensei quem me ensinou. Bem, de
entao até agora, uma longa lista de Mestres formou a minha Arte Marcial.
C.N.: De onde vam exactamente o
Okinawa Kenpo?
S.O.: Vem do Naha-Te. As possoas
agora pensam que antigamente, os estilos estavam muito separados. Nao era
assim! Os Mestres se encontravam e treinavam juntos, naqueles dias
compartilhavam seu conhecimento e viam-se com assiduidade. Com isso eu
beneficiei-me enormemente e pude estudar com alguns verdadeiros mitos da
tradiçao, que me transmitiram sua mensagem.
C.N.: Por exemplo, de quem aprendeu
o San Chin Kata?
S.O.: De meu Mestre Nakamura, que me
disse que devia de o fazer muito, pois precisava de muscular... Sempre fui
muito franzino... (risos).
C.N.: Como deve ser praticado?
S.O.: Só 30 % da energia deve estar
na parte de cima neste Kata; antes eram feitos 9 movimentos para ter
acesso a postura forte das pernas, agora fazemse menos avances, mas 70 %
da força está na parte inferior.
O origem da posiçao San Chin provem
dos toiros, tanto sua cornamenta como os pés do artista marcial se
encerram para dentro, seus pés também se encerram quando se enfrentam.
Para nóss o toiro é um animal muito forte.
A seguir teve lugar uma divertida
confusao, enquanto todos tratávamos de explicar ao Mestre o que é o Ki,
palavra que e/e parecia querer ignorar a consaiéncia. Quanto mais nos
esforçávamos em explicarlhe o conceito, mais impossível parecia que o
percebosse. Escrevemos o nome num papel, o Mestre Sueyoshi Akeshi que também
nos visitava naquele dia, ajudou nos trabalhos de traduçao, mostramos-lhe
o kanji... mas tudo foi inútil, esta foi a sua resposta...
S.O.: Eu nao acredito no Ki. Meu
Mestre nunca me disse nada do Ki; penso que é um conhecimento próprio da
China, alguns Mestres que viajaram aquele pais o importaram, mas no
Okinawa Kenpo nunca entreinávamos baixo estes conceitos; isto nao quer
dizer que façamos as coisas sem intençao, só que tais conceitos nao
estavam explicitamente presentes no nosso ensino.
C.N.: Bem, muita gente fala do Ki
como algo que se desenvolve com os anos. Com toda a sua experiencia viu
alguma vez uma técnica que permita projectar sem tocar no contrário, ou
alguma outra coisa maravilhosa ou aparentemente impossivel?
S.O.: Bem, o mais especial que vi
foi a um de meus Mestres o era magrito e pequeno como eu e levantava com a
ponta do Bo 16 kg de arroz num saco. Fazia-o sem dificuidade e era um
homem aparentemente muito débil; costumava projectar o saco como treino.
C.N.: Que diferença existe entre o
trenamento actual e o da sua juventude.
S.O.: Os jovens nao querem treinar
forte, sempre querem divertir-se e sentirse relaxados, mas o treinamento
de Okinawa nos velhos tempos era muito duro, hojer isto parece nao gostar
a ningém.
Antes faziamos muito fortalecimento:
de dedos, de maos acarreando vasilhas cheias de água apanhando-as pela
boca do jarro com a ponta dos dedos, usávamos sandálias com sola de
chumbo com que agarrar-nos fortemente ao solo o que forçava nossos músculos
e endurecia nossas posiçoes... Tudo isto mudou por que a mentalidade
mudou, agora é muito dificil encontrar alguém que esteja disposto a
esforçar-se.
C.N.: Que opiniais lhe merece o
treino com Makiwara.
S.O.: O Makiwara deve ter uma
capacidade de recepçao flexivel, isto é muito importante. Se é duro
como uma parede, o golpe repercute sobre nosso corpo e os pulmoes
ressentemse.
Seu treino é coisa que também
deixam de lado a maioria dos jovens... Eu tenho um instalado no meu dojo e
os jovens olham para ele de longe. Hoje nao fazem MaRiwara nem os ratos!
C.N.: O senhor é um reconhecido
versado em Kobudo, no qual, por assim dizer, recebe o repeito de todos na
ilha e, certamente, no resto do mundo. Pode falar-nos acerca do Bo?
S.O.: A origem do Bo é um pau que
utilizávamos para acarretar baldes nos trabalhos do campo. Contam os
idosos que em certa ocasiao um Samurai matou um dos nossos Mestres,
cortando seu Bo e atravessando-o com o mesmo golpe. Diz-se que por isso
copiaram do Unicórnio, animal mitológico com um longo e duro chifre,
para criar o Sai. Este sim é um instrumento muito mais duro e portanto
capaz de defender-nos apropriadamente dos ataques de um sabre.
C.N.: O que diria aos jovens, aos
futuros praticante de artes tradicionais, desde estas páginas?
S.O.: Bem, é dificil pensar que me
escutariam... Agora tém os computadores e as discotecas... nao há muitos
que queiram fazar Karaté tradicional.
Quando eu era um jovem nao tinhamos
nada disso, nossa diversao era subir as montanhas com enormes sandálias
com chumbo, das quais gastávamos vários pares por ano, isto acabou,
agora, nada de nada...
fica pensativo
Nao tenho nenhuma mensagem para os
jovens, nenhuma esperança acerca deles, penso que é tarde demais.
C.N.: Mas Sensei! E se alguém
tivesse a paixao, a força e o desejo para treinar esta arte, o que Ihe
diria?
S.O.: Dir-lhe-ia que praticasse
duro, que nisso há grandes vantegens, e que tentasse transmiti-la ao
futuro...; mas isto é pouco provável.
C.N.: Obrigado Sensei. Talvez este
video que hoje gravou, possa ser essa fonte de conex30 para que jovens de
outros paises peguem no relevo da sua tradiçao.
S.O.: Obrigado a voces pela vossa
hospitalidade. Realizar este trabalho foi para mim mativo de alegria e
satisfaçao. Sinto-me muito contente e feliz.